Por que chamam de catgut a corda de tripa de tênis?

A corda de tripa nunca foi feita de gato. Veja a origem do nome catgut, como o nylon e o poliester mudaram o jogo e o que isso muda no seu encordoamento.

Resposta curta: nunca teve gato nenhum nessa história. A corda de tripa que os fabricantes chamam de "natural gut" ou "catgut" sempre foi feita de intestino de animal de criação — hoje, basicamente intestino bovino, cuidadosamente separado em fitas finas, limpo, torcido e revestido. Boi, carneiro, ovelha. Gato, jamais.

O nome vem da mesma tradição que fabricava cordas de violino, harpa e alaúde com o mesmo material, séculos antes de alguém pensar em raquete. A explicação mais aceita entre luthiers e fabricantes é que "catgut" seria uma corruptela de "kitgut" ou "kitstring", sendo "kit" o nome de um violino pequeno usado por mestres de dança. Quando o tênis nasceu, no fim do século 19, ninguém teve que inventar corda: já existia uma indústria inteira produzindo fio de tripa para instrumentos e para suturas cirúrgicas. Bastou usar o que estava à mão.

A tripa chegou pronta ao tênis — e virou padrão por quase um século

As primeiras raquetes de madeira, com cabeça pequena e aro estreito, foram encordoadas com tripa porque era o único material com a combinação de elasticidade e resistência que dava para jogar. E funcionou tão bem que ficou. Por décadas, encordoar significava tripa, e a única dúvida era a espessura do fio e o quanto o encordoador conseguia esticar puxando com um alicate e uma alavanca de bancada.

Duas curiosidades práticas dessa era ainda valem hoje. A primeira é que a tripa detesta umidade: chuva, orvalho na quadra de saibro, raquete guardada num armário úmido. Antes dos revestimentos modernos, era comum guardar a raquete em prensa e evitar jogar com o gramado molhado, e não era frescura. A segunda é que a tripa mantém tensão melhor que qualquer sintético — por isso, mesmo em 2026, com poliéster dominando o circuito, a tripa continua sendo a referência de conforto e de estabilidade de tensão. Se você quer entender onde ela se encaixa hoje, vale ler o panorama dos tipos de corda de tênis.

O nylon entrou pelo preço, o poliéster entrou pelo efeito

O nylon apareceu no meio do século 20 e resolveu um problema simples: tripa é caríssima e sensível. O sintético não estragava com umidade, custava uma fração e permitia que qualquer clube tivesse raquete encordoada sem drama. Desse tronco saíram o nylon monofilamento com revestimento (a corda "sintética" básica de qualquer loja) e, depois, o multifilamento — centenas de fibras finíssimas trançadas justamente para imitar a sensação da tripa.

A virada mais recente é dos anos 1990, com o poliéster monofilamento. A corda é mais rígida, devolve menos energia e machuca mais o braço, então por que o circuito inteiro migrou? Porque ela é lisa, escorrega e volta ao lugar dentro do plano de cordas, o que ajuda muito a imprimir rotação — e porque aguenta o tranco de quem bate na bola com aceleração de profissional. Gustavo Kuerten ganhando Roland Garros com poliéster foi um marco simbólico dessa transição. Antes disso, quem queria durabilidade extrema usava kevlar, quase sempre misturado com nylon, o que popularizou a ideia de encordoamento híbrido.

A raquete "espaguete": quando o encordoamento virou caso de regulamento

A história mais divertida do encordoamento é a do "spaghetti stringing", de meados dos anos 1970. Alguém percebeu que, dobrando as cordas longitudinais, amarrando-as com tubinhos e fios e deixando as transversais frouxas, a bola saía com uma rotação absurda e uma trajetória que ninguém conseguia ler. Jogadores de nível médio começaram a derrubar cabeças de chave. Ilie Năstase foi um dos que usaram a invenção, e a federação internacional acabou proibindo o sistema, criando regra explícita: o plano de cordas tem que ser uniforme, alternado, sem objetos que alterem a trajetória.

É por causa disso que existem limites até hoje. Os famosos "string savers", aquelas peças plásticas colocadas entre as cordas para reduzir o atrito, sobreviveram porque servem para proteger a corda, não para criar efeito extra. E é também por isso que ninguém encorda uma raquete com dois planos independentes: simplesmente não é permitido em jogo oficial.

Por que a tensão vem em libras se a gente fala em quilos

Outro resquício histórico: o tênis nasceu no mundo anglófono, e as primeiras máquinas e embalagens traziam a escala em libras. No Brasil, encordoador e jogador conversam em quilos, mas a etiqueta da raquete quase sempre diz algo como 50 a 60 lb, o que dá aproximadamente 23 a 27 kg. Vale decorar a conta grossa: 1 kg equivale a cerca de 2,2 lb.

As máquinas também contam a evolução do ofício, na ordem em que apareceram:

  1. Alicate e alavanca manual, no tempo das raquetes de madeira.
  2. Máquina de peso morto (drop weight), simples e precisa se bem usada.
  3. Máquina manual de mola (lockout), que puxa até travar.
  4. Máquina eletrônica com puxador constante, padrão em loja hoje.

Se você já ouviu que uma cobra a mesma tensão da outra e o resultado sai diferente, é verdade, e o motivo está explicado em máquina eletrônica ou manual.

O que fazer com essa história na sua raquete

A lição prática é que material e tensão andam juntos, e cada geração de corda pediu um jeito diferente de encordoar. Tripa e multifilamento aceitam tensão mais alta sem punir o braço; poliéster pede a faixa baixa da etiqueta, quase sempre entre 22 e 25 kg (48 a 55 lb), justamente porque é rígido por natureza. Copiar o setup de quem vive no circuito sem esse contexto costuma dar errado — o assunto está detalhado em posso jogar com a tensão do Djokovic e em como escolher o número certo de tensão.

Na prática: escolha primeiro o material pelo seu braço e pelo seu estilo, depois ajuste a tensão dentro da faixa do fabricante, e anote o que foi feito. Corda, tensão, data. Duas ou três trocas com anotação valem mais que qualquer teoria histórica. Quando quiser testar uma combinação nova, veja as lojas perto de você e peça a opinião do encordoador antes de fechar o pedido.

Perguntas frequentes

A corda de tripa ainda é feita de intestino animal?

Sim. A tripa natural continua sendo produzida a partir de intestino bovino, cortado em fitas finas, tratado, torcido e revestido para resistir melhor à umidade. É um processo trabalhoso, e é por isso que o jogo de corda de tripa é o mais caro do mercado, muitas vezes várias vezes o preço de um poliéster comum. Muitos jogadores de clube usam tripa apenas nas longitudinais, em híbrido, para ter parte do conforto sem o custo total.

Corda antiga de nylon é pior que poliéster?

Não é pior, é diferente. Nylon e multifilamento devolvem mais energia e são bem mais confortáveis; poliéster é mais rígido, dura mais em uso pesado e ajuda no efeito. Para quem joga uma ou duas vezes por semana e não quebra corda, o sintético macio costuma ser a escolha mais sensata. Se você está pensando em migrar, dá para entender o impacto em sair do poliéster para o multifilamento.

Aquelas peças plásticas entre as cordas ainda fazem sentido?

Os string savers reduzem o atrito nos pontos de cruzamento e podem estender um pouco a vida de cordas macias, principalmente tripa e multifilamento. Em troca, deixam o plano de cordas mais rígido e mudam levemente a sensação da batida. Não substituem a troca: quando a corda perde tensão ou já está serrada, o caminho é encordoar de novo, como explicado em quando trocar a corda da raquete.

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